sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Visita ao Resistência Potiguar – Encaminhamentos da Iluminação Pública


Relatório sobre alguns encaminhamentos dos Encontros de Cidadania
Quinta-feira, 18 de novembro de 2010.

Saí de Natal às 10 horas da manhã. O objetivo dessa visita ao assentamento Resistência Potiguar, no meio da semana, era encontrar com alguns moradores da comunidade para irmos juntos ao Ministério Público da Comarca de Ceará Mirim para denunciar a falta de iluminação pública no assentamento, além do absurdo dos moradores pagarem todo mês, em suas contas de luz, a COSIP – Contribuição sobre Iluminação Pública – em uma área que a luz se vai junto com o pôr do sol.
A estrada estava tranqüila, com alguns poucos caminhões atrapalhando o trânsito. No meio do caminho lembrei que ainda não sabia onde ficava o Ministério Público em Ceará-Mirim. Após algumas ligações mal sucedidas (eu sei, preciso perder o hábito de falar ao telefone dirigindo) decidi descobrir quando chegasse por lá.
Cerca de 40 minutos depois, chegando a Ceará-Mirim, município próximo de Natal, fui direto ao fórum da cidade. Lá, a moça da recepção gentilmente me indicou o caminho do MP, duas ruas depois. Aproveitei pra saber se o Dr. Bruno, como costumava chamá-lo, defensor público da região, se encontrava por lá. Infelizmente, não estava. Conheci Dr. Bruno no meio do ano, quando nos ajudou com um processo contra alguns jovens do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Esse sim foi um processo estranho. Envolvia um desentendimento infantil, uma mandala de agricultura, um vereador oportunista, um juiz sem vergonha e um assessor de desembargador preguiçoso. Ah, e sem dúvida alguma, um defensor público dedicado e prestativo. Mas isso fica pra outra história.
Estacionei no MP e estranhei ter pouquíssima gente lá. Logo, uma menina de nome Tamires perguntou o que eu desejava. Questionei se era dia de atendimento, pois havia uma denúncia a ser feita. Ela me explicou que apenas nas terças-feiras o MP é aberto ao público e que eu deveria retornar naquele dia. Informou ainda quais os documentos necessários para tanto. Fiquei um pouco decepcionado, mas não havia o que fazer. Tentei pressionar um pouco para tentar falar com o Promotor, Dr. Siqueira, ao menos conversar brevemente com ele, pedir alguns conselhos. Ela disse ser impossível. “Até vereador já venho aqui no dia errado e ele não atendeu”. Resolvi não insistir. Peguei o telefone (32740228) e caí fora.
Pensei em ligar para Dona Adeílza, a moradora da comunidade de Resistência Potiguar, para informar o ocorrido e dizer que eu ia voltar para Natal. No entanto, resolvi ir lá pessoalmente. Já estava perto mesmo.
Com mais uns dez a quinze minutos de estrada, aportei no Resistência e fui logo indo até a casa de Dona Adeílza. Encontrei-a já pronta com documentos nas mãos me esperando. O que me deu uma pontada de tristeza por que já havia umas duas semanas que estávamos programando essa visita ao MP. Relatei a ela o ocorrido e pedi que me levasse à casa de Seu Fernando, para pensarmos o nosso próximo passo.
Junto com Dona Adeílza e Seu Fernando, decidimos que deixaríamos para ir ao MP e na Prefeitura na semana seguinte. Porém, hoje ainda eu deveria enviar mensagens para as redações dos telejornais, contando do problema. E sábado, em nossa visita ordinária ao assentamento, juntos ligaríamos para as redações e tentaríamos marcar uma reportagem no assentamento. Ao fim da conversa, uma boa surpresa: Bila, a vizinha de Seu Fernando, já estava quase acabando os bonecos de palha, Maria da luz e João do escuro, que o pessoal da comunidade tinha resolvido fazer para quando a equipe de TV fosse ao assentamento. Afinal, não é todo dia que nossa comunidade aparece na televisão, era bom capricharmos na denúncia!
Saí de lá com a sensação de que as coisas estavam enfim começando a acontecer. Como, porém, estava insatisfeito com o dia, aproveitei pra dar um pulinho no Centro Adminstrativo de Ceará-Mirim, onde ficam as secretarias municipais. Fui recebido por uma moça bem alegre, por volta de seus 30 anos, vestida toda de vermelho. Esquerda que sou, gostei do vermelho. Bati um papo com ela e descobri que o Sr. Lindonor era quem eu devia procurar, secretário de urbanismo. Fiquei uns quinze minutos conversando com ela esperando pelo secretário, conversa muito boa inclusive, regada a balinhas de café que ela insistia em me dar. Entrei na sala do secretário e me apresentei a ele, dizendo ser estudante de Direito da UFRN. Disse a situação do assentamento, da iluminação pública e logo começou as explicações. Dizia ele que já estava tudo se encaminhando, apesar de vários problemas na prefeitura, mas que eu não se preocupasse que próximo mês as obras já começariam. O mais interessante da conversa foi quando afirmou que me viu saindo do Ministério Público. Achei a situação engraçada. Ele tentou me convencer de que não havia necessidade de procurar a justiça, que pela prefeitura o problema seria resolvido. Mal sabia ele que o abaixo assinado e a ação contra a prefeitura já estavam praticamente prontos, sem contar com o contato com a imprensa. Fui compreensivo, dizendo que o entendia, mas era apenas um porta-voz da comunidade e qualquer decisão era dos moradores da comunidade.
Voltei pra Natal pensando em Bila, Seu Fernando e em Dona Adeílza. Como eles estão envolvidos em problemas que são sim deles, mas antes de tudo, problemas que são de toda a comunidade. Será que junto com eles conseguiremos alcançar o objetivo do Lições de Cidadania de colaborar no emponderamento de sujeitos coletivos? Só caminhando saberemos. O que eu sei é que são pessoas como eles que me ajudam a começar a enxergar trilhas que nunca poderia enxergar sozinho.

Pedro Feitoza
Programa Lições de Cidadania – Núcleo Rural Resistência Potiguar


Um comentário:

  1. Muito bacana o relato, Pedroca, melhores ainda as reflexões! As lições de cidadania ocorrendo em fluxo contínuo, num sentido e no outro, sensacional.

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