quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PROPOSTA DE UMA EXTENSÃO POPULAR: A METODOLOGIA DO LIÇÕES DE CIDADANIA

O Programa de Extensão Lições de Cidadania produziu uma metodologia a partir das suas ações que se torna também método de pesquisa, diante da importância da pesquisa de campo e a aproximação com a realidade e as demandas sociais.

A metodologia da Extensão Universitária Popular fundamenta-se essencialmente em cinco momentos: Conhecer, Despertar, Dialogar, Avaliar e Celebrar. Tais momentos não são passos em separado, um momento após o outro; são entrelaçados para o melhor andamento do processo.

O primeiro momento é o Conhecer, em que os extensionistas-pesquisadores buscam ter um primeiro contato com a realidade para conhecê-la e dar inicio à criação de um vínculo de confiança com as pessoas. Para isso é necessária a sensibilidade para perceber as especificidades da localidade e, principalmente, humildade, que gera o respeito em relação ao espaço de vida. Dessa forma, o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético, e não um favor que podemos ou não conceder. Por conseguinte, o sujeito que desrespeita a curiosidade de outro sujeito, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, transgride os princípios da Extensão Universitária Popular (FREIRE, 1996, 59).

Durante esse momento, uma prática muito importante para a Extensão Popular, através dos Encontros de Cidadania[1], ser bem sucedida é escutar o que os sujeitos da localidade têm para relatar, pois na verdade, como evidencia Paulo Freire,

“se o sonho que nos anima é democrático e solidário, não é falando aos outros, de cima para baixo, sobretudo, como se fôssemos os portadores da verdade a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles” (FREIRE, 1996, p. 113).

O segundo momento é o Despertar, a conseqüência do primeiro, pois é conhecendo que despertamos para práticas educativas que realmente transformem a realidade dos sujeitos envolvidos. Aqui cabe destacar que os sujeitos são os estudantes e professores da universidade, como os moradores urbanos, acampados ou assentados rurais, detentos[2]; todos envolvidos na prática educativa, despertando em comunhão para uma prática política libertadora a serviço de seus espaços.

É nesse primeiro contato que é possível constatar para transformar um status de violação dos direitos fundamentais, assim como converter em atividade uma omissão dos estudantes e professores universitários diante das condições sociais do país, na libertação de uma passividade para uma resposta concreta e eficaz à sociedade que custeia seu estudo e trabalho. Além de ser imperativo ético fomentar valores e ações democráticas necessárias para a mudança de status da realidade social brasileira.

Nessa ação, todos os sujeitos envolvidos despertam para práticas que transformam os seus espaços na construção de uma cidadania, através da participação popular que enfrenta os problemas sociais e, em comunhão, desenvolvem soluções para tais comunidades, sejam elas universitária, carcerária, urbana ou rural.

Então, a Extensão Universitária Popular é fundada na construção do conhecimento e não num depósito ou transferência deste. É uma educação por duas vias, uma condição simultânea de educador - educando.

É possível exemplificar esse momento com um caso especifico de um bairro que sofra com a violência e um projeto de Educação Jurídica Popular vá trabalhar com a temática do Direito à Segurança. Nesse caso, é mais racional dialogar com os sujeitos sobre a realidade concreta e associá-la a disciplina, cujo conteúdo se constrói. Não é possível apenas dialogar sobre fundamentos teóricos do direito à segurança, descontextualizados com uma realidade agressiva, em que a violência é a constante e a convivência dos sujeitos do bairro é muito maior com a morte do que com a vida, sendo assim impossível construir soluções realmente adequadas à realidade. Fala-se aqui da necessidade de uma Educação sob medida, em que realidade e fundamentos, saberes popular e acadêmico, teoria e prática se encontram e dialogam em busca de uma solução.

O terceiro momento, o Dialogar, é a prática desse despertar, com a instrumentalização das soluções aplicadas agora na realidade, através de “aulas”, dos momentos de diálogo com a comunidade chamados “Encontros de Cidadania”. É o período em que ocorre a transformação do espaço de vida e dos sujeitos envolvidos, tendo capacidade de aprender, não apenas para uma adaptação, mas, sobretudo para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a em comunhão. (FREIRE, 1996).

Seguindo o tripé indissociável da educação universitária, consagrado no art. 207 da Constituição Federal[3], “o Dialogar” é o momento da extensão propriamente dita, com o objetivo de intensificar relações transformadoras entre a universidade e a sociedade[4], por meio de um processo educativo.

Aqui cabe destacar, mais uma vez, que a metodologia não se dá na forma de etapas, um momento após o outro; são fundamentos práticos em que, por exexmplo, para conhecer é preciso dialogar, assim como é possível despertar no diálogo entre os sujeitos.

O quarto momento é o Avaliar, quando é pensada e debatida a continuidade do trabalho e realizada uma análise dos erros e acertos para que, dessa forma, a extensão possa evoluir a cada vez que for aplicada. Também faz parte da avaliação a percepção das ações e articulações da própria comunidade em favor dos seus direitos, quando é posto em prática o que foi construído durante o processo formativo.

E por fim, o quinto momento é o de Celebrar os êxitos junto com a comunidade; é quando os educadores – educandos, todos os sujeitos envolvidos, selam um vínculo, em virtude de tudo que foi vivenciado e transformado.

Essencialmente, a metodologia terá o norte de constatar para transformar.


Hélio Miguel e Natália Bonavidades
 Programa Lições de Cidadania - Núcleo Urbano Leningrado
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[1] Momento da Extensão Popular Universitária na Comunidade

[2] O Programa Lições de Cidadania atualmente trabalha com os núcleos Urbano, Rural, Penitenciário e Educação em Direitos Humanos Infantil.

[3] BRASIL. Constituição Federal, 1988.

[4] BRASIL. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Estatuto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, art. 51. Disponível em: . Acesso em 2 de abr. 2008.

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