segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Primeiras impressões dos novos membros sobre o Leningrado

Neste último sábado, 21/08, os novos membros do Núcleo Urbano e do EDHUPIN (Educação em Direitos Humanos Popular Infantil) realizaram a primeira ida ao Conjunto Habitacional Leningrado, no Bairro do Planalto, em Natal, lugar de atuação do Programa Lições de Cidadania no cenário urbano potiguar, que vivencia diversos problemas referentes à cidadania e à concretização de seus direitos mais básicos, como a educação, a saúde e a segurança.
Abaixo, seguem breves relatos das primeiras impressões de cada novo membro neste primeiro encontro:
Membros do Núcleo Urbano
O personagem de Ewan Mcgregor no filme “Peixe Grande” do Tim Burton, Edward Bloom, decide sair de sua cidade natal através do caminho mais sombrio e misterioso. A estrada seguida por ele era escura, esburacada, longa, com uma intensa vegetação cercando-a e placas desencorajando os viajantes a passar por ela. Nesse trecho específico do filme, ele acaba encontrando uma cidade, a Cidade de Espectro, isolada do resto do mundo, fechada em si própria cujos moradores jamais a deixavam sequer pra comercializar qualquer coisa.
Foi inevitável não me lembrar desse fragmento ao visitar o Leningrado. Mas há uma diferença fundamental entre a cidade fictícia e o conjunto real, naquela havia tudo o que os seus moradores precisavam. Nessa, me veio uma sensação quase claustrofóbica, todas aquelas casas restritas a uma área quadrada cercada por dunas e mato com apenas duas entradas/saídas, essa foi a característica que mais me impressionou.
Em geral, conhecer a comunidade foi uma experiência por deveras enriquecedora que há muito esperava. Marcou o início de um processo de absorção, de constatação da realidade que iremos enfrentar como membros do “Lições de Cidadania” e como profissionais, e da intervenção. Ainda mais gratificante foi ouvir as histórias de dona Rosa, do seu marido e de sua vizinha, três dos muitos esquecidos pelo Estado, ainda movidos pela esperança e pela solidariedade, lutando para que o Leningrado deixe de ser uma “Cidade de Espectro”.
(Magnus Henry, 3º período)
Eu já havia ido uma vez ao leningrado a uns 4 anos atrás com um pessoal da minha igreja e dessa vez que fui com o lições, depois de muito tempo, pude notar a comunidade um pouco mais organizada. Isso não significa que as coisas melhoraram de fato ora que é gritante as precárias condições de vida, a marginalização e negligência social por parte das instituições governamentais responsáveis e a falta de perspectiva quanto a um futuro melhor por parte dos moradores. Tivemos contato com algumas pessoas ativas no que toca à mobilização local para reivindicar direitos negados e buscar melhorias, mas também com um homem que de forma espontânea e sincera demonstrou a impaciência e indignação quanto ao ato de esperar indefinidamente por melhorias que as estruturas sensoriais daquela população ainda não conseguem captar e/ou aceitar(como no caso da CMEI que embora traga seus benefícios, teria maior e mais digna função caso fizesse juz à sua estrutura física e fosse uma escola).Para concluir, eu creio que a união, engajamento e esperança dos moradores do leningrado na formação de um corpo social que busca a reafirmação da nossa natureza humana e cidadã, é o caminho árduo, longo e imprevisível que os levará à (re)conquista dos seus direitos humanos fundamentais.
(Pablo Gurgel, 2º período)
No caminho, a distância, por que tão distante? Estão escondendo algo? Barro, buracos, poças, é, tem chovido. Chegando ao Leningrado…Nossa, quantas casas, como o pessoal é receptivo, eles precisam mesmo serem ouvidos.. Mas calma aí, só vejo casas, não tem hospitais? Escolas? Não. Mas então pelo menos passa um transporte por aqui pra eles terem acesso? Bem, a parada mais próxima fica a 2,5km, tem que seguir por aquela “rua” ali, sem asfalto, iluminação… É, o Leningrado potiguar está bem distante da grande São Petersburgo, que outrora também era assim chamada, mas, que a luta não acabe e que eles possam ser ouvidos!
(Thiago Luiz, 3º período)
A primeira visita ao Leningrado foi uma experiência gratificante e assustadora, constatar que a poucos quilômetros de nossas casas existe uma realidade tão distinta da nossa é algo inquietante. Digo constatar porque mesmo sabendo da existência de comunidades em situação tão precária não nos damos conta da gravidade até que ela se escancare diante dos nossos olhos. Mais assustador ainda é perceber a esperança depositada por aquelas pessoas em nosso “trabalho” uma vez que se torna temeroso pensar que podemos não atender as suas expectativas. Entretanto, é glorificante sentir a confiança delas em nós e saber que podemos construir conjuntamente uma experiência que possibilitará melhorias nas condições de vida daquela comunidade. Seguindo o raciocínio de Paulo Freire: “Constatamos para intervir, não para nos adaptar”, a constatação já foi feita, agora nos resta a mudança.
(Talita Camelo, 4º período)
Membros do EDHUPIN:
Conhecer Leningrado foi uma experiência nova que intensificou meu desejo por mudanças. Entrar em contato com os moradores da comunidade, conhecer a história daqueles que lutam desde a ocupação pelo direito à habitação e ter ciência do que sofreram e das violações que ainda sofrem, com certeza, foi combustível para justa-raiva.
(Marcela Carapeto, 2º período)
 A experiência de visitar a comunidade do Leningrado no bairro Planalto serviu como um choque de realidade, a visualização de outra cidade que não conhecemos, uma espécie de microcosmo de uma cidade ou até mesmo do nosso país inserido no meio da bolha a qual estamos habituados a morar. A maior parte das pessoas estão desempregadas e as crianças sofrem para chegar a escola, mas,ver essa situação torna a revolta cada vez mais concreta e o desejo de poder ajudar a mudar ,de compartilhar o conhecimento que a Universidade Federal nos oferece  para que a educação possa mostrar a todos que são iguais perante a lei e que podem exigir isso de nossos governantes ,pois quem conhece seus direitos ou mesmo tem o conhecimento na mãos ,tem o poder de tirar o mundo da inércia,mesmo que esse mundo comece com o seu vizinho.
 (Tuísa Sampaio, 3º período)
A visita ao Leningrado foi uma experiência altamente construtiva, por ser uma ótima oportunidade de poder ver com os próprios olhos a realidade com a qual alguns dos membros de nosso núcleo, os que optarem agir em conjunto com o núcleo Urbano, irão conviver. Estar lá, sentir-se realmente como um representante do Lições de Cidadania foi uma grande sensação, além da oportunidade de ouvir dos próprios moradores a sua história de luta e as necessidades, problemas, sentimentos e vitórias deles. Notei que há realmente uma demanda significativa de crianças que nós do Edhupin devemos atender, como já foi dito por membros do Urbano. Vimos a estrutura ainda em obras do que deverá ser o primeiro centro educacional do Leningrado, que soubemos que estava primeiramente prevista para atender 280 crianças de até 10 anos, e agora serão apenas 180 crianças até 6, além da ausência de transporte que pudesse levá-los até alguma escola ou posto de saúde, o que piora pelo fato de que o Leningrado se localiza num local em que em volta da comunidade, em todos os lados está coberto pela vegetação, e nesse ponto caminho fica o perigo para quem precisa se locomover,onde já houveram assassinatos e outros crimes, o que faz com que algumas pessoas acabem desistindo de estudar devido ao medo. Por motivos como esse e outros problemas pudemos observar lá, nós, como membros do Lições de Cidadania, devemos estar motivados a fazer nossa parte na construção de um mundo mais humano e menos desigual.
(Vitor Hugo, 3º período)
Conhecer o Leningrado foi, para mim, a prova de que o Estado não se mostra de forma igual para todos. Ouvimos relatos de verdadeiros dramas humanos, mas principalmente histórias de superação. O lugar composto por casas simples distribuídas em poucas ruas existe como fruto da luta de pessoas as viviam a margem do corpo social. Garantiu a esses indivíduos o direito de dispor de um teto, ou melhor, de um lar. Contudo, Direito a Moradia é bem mais do que isso: é além do teto, ter condições dignas de lá habitar. Pude ver de perto violações aos direitos mais básicos de que todos deveriam dispor. Não há postos de saúde, delegacias de polícia, sistema de transporte, e o mais absurdo, nem mesmo escolas. As crianças, que deveriam gozar de todas as condições que permitissem seu pleno desenvolvimento precisam andar quilômetros por uma estrada de terra, arriscando sua integridade física, até chegar ao ponto de ônibus mais próximo e assim deslocar-se até a escola. E foram essas crianças que me fizeram refletir aquele dia. Já ao fim da visita, percorríamos as ruas do bairro quando ví dois garotos, de pé, descalços sob um monte de lixo. Não posso afirmar com certeza o que estavam fazendo- talvez estivessem apenas brincando, mas é possível que estivessem trabalhando, procurando algo a que se pudesse vender, ou ainda (na pior das hipóteses) podiam estar a procura de alimento… Nesse momento, pensei sobre de que modo poderia construir com essas crianças a ideia de que são sujeitos de direitos, se a situação em que vivem representa a total ineficiência do Estado em proporcionar- lhes uma vida digna. Para que isso servirá? Mas tão breve surgiram as dúvidas, as soluções também se apresentaram: porque a luta não pode cessar. O Leningrado precisa prosperar, e isso só ocorrerá se as pessoas desde cedo forem conscientes de seus direitos e obrigações. Que uma sociedade mais justa só se constroi a partir da ação individual, pelo respeito e valorização do homem. Mas também devemos refletir em conjunto com esse povo a importância da politização e do pensar em coletividade. Percebi que nossa missão no Leningrado é bem mais do que proporcionar uma educação em Direitos Humanos popular infantil: nosso dever é resgatar a cidadania daqueles que nunca puderam desfrutar das garantias constitucionalmente previstas aos cidadãos.
(Anna Karenine, 3º período)

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