terça-feira, 26 de outubro de 2010

Desenhando o futuro que queremos ter


As atividades do EDHUPIN em Resistência Potiguar começaram com o foco em ganhar o respeito e a confiança das crianças. Decidimos que, antes de trabalharmos assuntos ligados à cidadania e aos direitos humanos, deveríamos estabelecer primeiro uma ligação com elas.
Inserindo aos poucos as temáticas, pedimos às crianças que desenhassem em um lado de uma folha de papel como enxergavam o assentamento, e do outro como queriam que ele fosse, para que assim pudéssemos compreender um pouco sua apreensão subjetiva da realidade. Dessa atividade constatamos o impacto da carência de infra-estrutura destinada ao lazer para as crianças do Resistência Potiguar. Em quase todos os desenhos, um lado da folha continha casas pintadas com cores frias, sem alegria, o outro, desenhos coloridos com campos de futebol e piscinas.
A atividade lúdica, o lazer e a brincadeira são meios que possibilitam o desenvolvimento cognitivo, criativo, cultural e social. A brincadeira leva à interação entre a realidade e o universo interno da criança, permitindo que esta descubra o mundo a partir de atividades lúdicas. Isto, por si só, é uma forma de libertação, de desenvolvimento da autonomia. Como coloca Paulo Freire: “ Não há possibilidade de pensarmos o amanhã, mais próximo ou mais remoto, sem que nos achemos em processo permanente de “emersão” do hoje, “molhados” do tempo que vivemos, tocados por seus desafios, instigados por seus problemas.”¹
Diante da importância da brincadeira, torna-se essencial problematizarmos questões ligadas ao lazer e à plena proteção do desenvolvimento sadio das crianças e dos adolescentes.
O artigo 6 da nossa Constituição Federal traz o lazer como direito social básico, ganhando então importância constitucional. O Estatuto da Criança e do Adolescente ( ECA), atrela o lazer e a brincadeira ao direito individual à liberdade, colocando em seu art. 16, inciso V, a brincadeira, a prática de esportes e a diversão como aspectos desse direito. Percebemos, então, a inegável importância do direito ao lazer no nosso ordenamento, mas percebemos também, a partir do contato com a comunidade, uma grande distância entre o texto e a realidade.
A interpretação dos desenhos mostra que as crianças sentem a falta de espaços que permitam a brincadeira. Entretanto, a falta de infra-estrutura não se restringe a isso. Resistência Potiguar não tem iluminação pública, impossibilitando que as crianças saiam de casa após 18h00min, limitando mais uma vez o acesso ao lazer e à brincadeira.
Nós não podemos nos colocar distantes desses problemas, eles não são somente dos moradores de Resistência Potiguar. Como contido no próprio art. 4 do ECA: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.” (grifo próprio)
"NÃO É NA RESIGNAÇÃO, MAS NA REBELDIA, DIANTE DAS INJUSTIÇAS, QUE NOS AFIRMAMOS" (PAULO FREIRE)


¹FREIRE, Paulo Reglus Neves, cf. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos, cit.

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