segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Atuação do Núcleo Urbano: debatendo o temário com o Leningrado

“Não há possibilidade de pensarmos o amanhã, mais próximo ou mais remoto, sem que nos achemos em processo permanente de ‘emersão’ no hoje, ‘molhados’ no tempo em que vivemos, tocados por seus desafios, instigados por seus problemas, inseguros ante a insensatez que anuncia desastres, tomados de justa raiva em face das in-justiças que expressam, em níveis que causam assombros, a capacidade humana de transgressão da ética.”
A partir dessa compreensão, que nos permitiu não só constatar, mas, sobretudo, denunciar a realidade opressora na qual vive moradores e moradoras do Conjunto Habitacional Leningrado, seguimos no intuito de construir, em conjunto com esses e essas, o anúncio de transformação para outro modo de vida, verdadeiramente livre.
Com esse objetivo em mente, fomos ao Leningrado para reviver o cotidiano da comunidade e reencontrar verdadeiros companheiros e companheiras de luta, dispostos a construir política e coletivamente esse momento de formação.
De início, chegamos à casa de uma das representantes da Associação de Moradores do Conjunto, momento em que duas delas, sentadas na varanda enquanto o feijão fervia, partilharam conosco os últimos acontecimentos e vivências da comunidade, bem como nos mostraram disposição e vontade de fazer acontecer os diálogos de cidadania.
Após estabelecer a data do nosso primeiro encontro (13/11) seguimos ao Galpão, onde costumam acontecer as assembléias e vivências religiosas do Conjunto, momento em que tivemos a oportunidade de conversar com uma liderança religiosa do Leningrado, da qual recebemos o apoio e incentivo para a realização das atividades.
Em seguida, a partir de um diálogo que se estabeleceu através da organização dos espaços e exposição dos temas que levantamos como sugestão para os encontros, nos foi também oportunizado ouvir relatos ricos em significados, de uma realidade dura, mas em que, ao mesmo tempo, não se deixa abalar nem perder o bom humor aos (às) que nela vivem.
“A saúde no Leningrado está doente”, disse Dona Rosa. “Aqui é uma ‘fartura’, ‘farta’ tudo, como vocês sabem”, acrescentou, nos lembrando da ausência na comunidade dos direitos sociais mais básicos, negados a famílias vítimas do descaso da administração pública de Natal.
Resolvemos então ir até a creche que está em construção e que promete funcionar no início do próximo ano. Creche essa, vale ressaltar, que atenderá a demanda de crianças de 0 a 06 anos, que, nos inúmeros depoimentos dos (as) moradores (as) ficou nítido não ser a principal demanda – mas sim uma escola de ensino fundamental I e II, para crianças e adolescentes entre 07 e 15 anos.
Enquanto a escola não é construída, e nem a Secretaria Municipal de Educação garante matrícula e transporte para todos (as) que estão em fase escolar, crianças e adolescentes ou ficam fora da escola ou são submetidas a enfrentar cotidianamente 2 km de caminhada em ruas sem pavimentação e iluminação, ou por entre as dunas do bairro do Guarapes, até o colégio em que foram matriculadas (os).
                                                                  
No momento seguinte, nos encontramos com um dos representantes do MLB – Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas –, para compartilhar os temas que tiramos dos resultados dos questionários como sugestão e realizarmos juntos as proposições para esses momentos de cidadania.
Em conversas, lembramos que, através do Leningrado foi possível aprender que o direito a moradia não termina com a entrega da casa: apenas começa. Pois, entendemos que, o verdadeiro direito a moradia, que garante o exercício da cidadania e de direitos deve assegurar uma condição de ocupação estável, dotada de infra-estrutura e acesso a bens e serviços coletivos – como saúde, educação, transporte, lazer e cultura, segurança, entre outros –, todos esses completamente inexistentes na comunidade.
Foi também combinada a nossa ida ao Leningrado no dia 05/11, para participar da Assembléia Geral que ocorrerá no Conjunto e conversar com os moradores e as moradoras sobre nossos encontros – em que o primeiro ciclo começará próximo mês e tem como término dia 18/12, retornando em janeiro.
Em seguida, fomos em conjunto a Ocupação Anatália Alves, no bairro dos Guarapes, para conhecer o espaço e os (as) ocupantes da área e reconhecer o espaço de luta, na perspectiva de somar esforços para que o mais breve possível ali também se possam efetivar direitos.
São cerca de 270 famílias, oriundas de diversas localidades da cidade, principalmente das regiões oeste e norte, organizadas em barracos e inseridas em um contexto de processos sócio-econômicos e políticas abrangentes que determinam a produção do espaço das cidades e refletem sobre a terra urbana a segregação que caracteriza a excludente dinâmica das classes sociais, geradora de grandes contradições, desigualdades e discriminações. Portanto, sem alternativas de onde e como morar, a ocupação é, para nós, a alternativa legítima de reivindicar o direito à habitação legalmente previsto.
Indignados e indignadas seguimos ao lado desses lutadores e dessas lutadoras ao defendermos que as leis de mercado não podem preceder as leis da vida humana e que só a partir de uma ação consciente e conscientizadora, ao mesmo tempo combativa, na perspectiva do compromisso com a emancipação política, humana e social, conseguiremos juntos elevar o padrão de vida das maiorias e suscitar necessidades mais profundas e radicais, como forma de fomentar a liberdade e igualdade e transformar as cidades em espaços vitais de uma sociabilidade que se evidencia na lógica dos direitos humanos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário